Inclusão
Como entrevistar um aluno para o PEI: o que perguntar e o que fazer com a resposta
1 de setembro de 2026

Entrevistar o estudante costuma ser a etapa mais pulada na construção do PEI. Este texto traz perguntas concretas para conduzir essa conversa e mostra o que fazer com as respostas depois que a entrevista termina.
Na maioria dos PEIs que chegam prontos para a coordenação assinar, existe uma ausência que ninguém aponta porque já virou normal: a voz do próprio estudante. O documento reúne a visão da professora regente, do profissional de AEE, às vezes da família — e segue direto para as metas, sem que ninguém tenha perguntado à criança ou ao adolescente o que ele mesmo tem a dizer sobre como aprende.
Não é por falta de cuidado. É que ninguém ensinou como fazer essa entrevista, e a rotina da escola não deixa muita margem para inventar um processo do zero.
Por que essa etapa fica de fora
As razões são conhecidas por quem está na ponta: falta tempo dentro da carga horária já apertada, falta formação específica para conduzir uma escuta estruturada com uma criança, e falta segurança sobre o que fazer se a resposta vier de um jeito que não cabe num campo de texto do PEI. Nenhuma dessas razões é desculpa — são obstáculos reais, e vale nomeá-los antes de cobrar a etapa de quem já faz muito com pouco.
O Decreto nº 12.773/2025 e a literatura sobre desenho universal para a aprendizagem convergem no mesmo ponto: o estudante é fonte primária de informação sobre si mesmo, não só objeto de observação de terceiros. Mas princípio não vira prática sem um roteiro de perguntas na mão.
Perguntas que abrem espaço, não que fecham resposta
Perguntas genéricas do tipo "o que você quer ser quando crescer?" raramente rendem algo que vira meta pedagógica. Funcionam melhor perguntas concretas sobre o dia a dia de aprender:
- Do que você mais gosta de fazer, dentro e fora da escola?
- Tem alguma coisa que fica mais fácil de entender quando alguém explica de um jeito diferente? Qual jeito?
- Onde você prefere sentar na sala, e por quê?
- Tem algo que te incomoda ou distrai enquanto você está tentando prestar atenção?
- Se pudesse mudar uma coisa em como as atividades são explicadas para você, o que seria?
A ordem importa: começar por interesse e prazer, não por dificuldade. Isso muda o tom da conversa e costuma trazer respostas mais francas — inclusive sobre o que não está funcionando.
Registrar o meio, não só a resposta
Uma parte que passa despercebida: registrar como a escuta foi feita é tão importante quanto registrar o que foi dito. Nem todo estudante responde por entrevista direta e falada — alguns respondem por prancha de comunicação, outros por intérprete de Libras, outros através da mediação da família, que traduz sinais que só ela reconhece.
Anotar o meio usado não é burocracia extra: é o que permite que a próxima pessoa que ler o PEI — um professor novo, a coordenação no ano seguinte — saiba se aquela resposta veio da criança em primeira mão ou foi mediada, e ajuste a leitura de acordo. Sem esse registro, a escuta feita hoje se perde no ano seguinte.
O que fazer com a resposta
A entrevista só tem valor se a resposta virar prática, não ficar arquivada num campo isolado do documento. Um exemplo do tipo de conexão que costuma funcionar: se o estudante menciona um interesse específico — animais, jogos, música, o que for — esse interesse pode virar o contexto de uma atividade em disciplinas que, à primeira vista, não têm nada a ver com ele. Matemática com contagem de patas de cavalo em vez de contagem de objetos genéricos, por exemplo. É pouco, mas é exatamente o tipo de ajuste que o professor não teria feito sem a pista vinda da própria criança.
O ganho aqui não é revolucionário — é modesto e real: a escuta estruturada melhora a qualidade do plano. Não substitui a formação da equipe nem resolve sozinha a inclusão do estudante, e não deveria ser vendida como mais do que é.
Hoje, boa parte das escolas registra essa entrevista — quando acontece — numa anotação avulsa, separada do resto do PEI. Já existem sistemas de gestão da inclusão que preveem um campo próprio para isso, com espaço para marcar o meio de coleta e ligar a resposta diretamente às metas e sugestões de atividade nas disciplinas — reduzindo a chance de a escuta feita numa sala virar letra morta no documento arquivado em outra.
Se a escola já faz essa entrevista de algum jeito, vale revisitar duas perguntas antes de repetir o processo no próximo ciclo: quem, hoje, faz essa pergunta ao estudante — e o que acontece com a resposta depois que ele sai da sala.